Memórias e Histórias (2000-2007)

Macaparana/PE: Valterlir, o “big boss” da comunicação underground

Qual seria o sentido de um Moondo observado apenas pelas janelas residenciais?
Um Moondo sem diálogos em outros espaços… Um Moondo sem percorrer as estradas plurais em um país gigante? Conheça os povos e converse com as pessoas. Escute e aprenda. Dialogue para além das paredes do seu lar.

Pelas estradas, aprendi e compartilhei informações com professores do Rock/Metal. E não estou falando de medalhões reconhecidos no universo musical. Muitos, por sinal, não frequentaram o ABC das “escolas” no underground. Muito ego, muita grana e, consequentemente, muitas latrinas entupidas… Deixa quieto!

As rememorações do cidadão de Macaparana/PE são totalmente o oposto deste oportuno desabafo. Valterlir é um irmão de sangue underground. Uma referência, tanto na comunicação – editor e colaborador de zines e webzines – e, também, nos valores culturais (ou da contracultura) distorcidos e embebecidos de maneira singular e espontânea. As palavras do cidadão natural da Zona da Mata Norte de Pernambuco, merecem a atenção de todos nós. Portanto, evitei realizar complementações no decorrer da narrativa. Sou grato pelo relato do amigo e “chefe” da comunicação underground em Pernambuco:

“Era início dos anos 2000, mais precisamente final de 2002, início de 2003, pois me lembro que no lendário show do Kreator/Destruction [no Recife], em 31 de agosto de 2002, eu ainda não tinha contato com Edmundo Monte. Meu contato se deu quando me deparei com o endereço da Moondo Records em algum fanzine. Era uma época que eu adquiria muitos fanzines, de toda a parte do Brasil e consegui o endereço da Moondo Records, um selo Underground de Pernambuco, em algum fanzine de fora do Estado. Vi o endereço e, claro, entrei em contato, pois, mesmo sendo de Pernambuco, eu não tinha muitos contatos aqui no meu próprio Estado.

Moro no interior, e naquela época a comunicação não era tão rápida como hoje. A internet ainda engatinhava, era discada, e nem todos tinham acesso. Eu, sequer, tinha computador. Usava o do meu trabalho, assim como a internet, esporadicamente.

Voltando ao contato, ele foi feito por carta, endereçada à Caixa Postal da Moondo Records. Acho que em 2003, não lembro bem o mês. Afinal, já são [mais de] duas décadas. Claro, a resposta não demorou a chegar e, com a resposta, veio logo o catálogo da Moondo Records. Naquela época, já não tinha mais a loja física, [que funcionou no Centro do Recife entre 2001-2003]. A partir daí começamos a troca de cartas, como eram feitos os contatos ‘em tempos primitivos’. Bons tempos aqueles… Comecei a adquirir material com o Edmundo/Moondo Records. A maioria era Demo-tapes ou CDs-Demo, através dos Correios [catálogo do selo que atendia o Brasil e outros países].

Eu vim a conhecer Edmundo pessoalmente em agosto de 2003, num evento que ocorreu no bairro do Pina, no Recife. […] Lembro que o local estava lotado, não de início, mas ao decorrer do evento lotou. Muita gente! Ali pude conhecer o Edmundo pessoalmente, trocar umas ideias, poucas, afinal era correria no local de shows. Tinha as bandas para conferir, merchandising para comprar… Batemos uma foto naquele dia. A partir daí, começamos a trocar ideias com mais frequência, inclusive via Messenger [o antigo MSN], depois dos e-mails. A tecnologia já tomava conta e deixava mais as cartas de lado.

Edmundo e Valterlir, agosto de 2003. (Foto: Acervo de Valterlir Mendes).

Nessa época Edmundo organizava eventos. Claro, sempre que ele organizava algo já me informava. Fui a muitos eventos organizados pela Moondo Records. Muitos mesmo! Eu acho que quando conheci Edmundo pessoalmente, fui a praticamente todos os eventos que ele organizou. Alguns deles lotados, outros com público menor.

Lembro-me de um, [o lançamento do CD do Recidivus e do Anthropophagical Warfare], que Edmundo até se emocionou ao agradecer ao público presente, que lotou o Dokas, antigo reduto Underground localizado no Bairro do Recife. E olha que era uma sexta-feira, véspera de um show do Deep Purple no Recife! E, sim, eu não fui conferir o show do Deep Purple.

Viajar do interior para a capital levava uma grana e eu ainda não ficava na casa do pessoal por lá. E por falar em ficar na casa do pessoal, foi Edmundo o primeiro a abrir as portas para mim lá em Recife. Por muitas vezes me hospedei no apartamento da família dele, que ficava localizado na Boa Vista. Com Edmundo e a família, fui para um aniversário de Alcides Burn. Eu nem conhecia o Alcides ainda. Foi por intermédio de Edmundo que eu o conheci, e até hoje, sempre que vou para algum show e preciso ficar, é Alcides quem agora me dá guarita.

Por intermédio de Edmundo, também conheci os amigos do Anthropophagical Warfare: os irmãos Dimas e Demétrio, e o baterista Erik. Foram outros, os irmãos Mutzenberg, que por muitos anos também me deram abrigo. Conheci muita gente do meio Underground por causa de Edmundo.

E as viagens [turnês]? (risos). Fizemos algumas. Eu saía de minha cidade, Macaparana/PE, ia para Recife, para depois ir para João Pessoa etc., pegar algum show. Era fantástico pegar a estrada, dar boas risadas, reclamar porque o pessoal não trocava o CD. Era ‘porrada’ (leia-se Metal Extremo) rolando no som o tempo todo e alguém, de vez em quando gritava: ‘porra! Só rola brutal!.’ Certa vez, saí daqui de minha cidade para Recife, para de lá ir para Fortaleza, numa van! Putz! Foram 12 horas de viagem, numa época que as rodovias eram buracos só (não que tenha mudado muito). Isso com direito a pneu furado, os caras que não paravam de ‘fazer fumaça’ dentro da van.

Nada de dormir direito, passando por cidades quentes (eita, Mossoró!), até chegarmos à Fortaleza e irmos para um pequeno hotel. Eram viagens, que por mais cansativas que fossem, valiam a pena. Era bom tá com o pessoal, trocando ideias e vendo como o Underground funcionava, e até mesmo encontrar um bode beberrão na volta, como ocorrido nessa viagem para Fortaleza.

Voltando aos shows, lembro [da segunda turnê nacional] da banda de Black Metal belga Iconoclasm, no qual pedi ao Edmundo para colocar uma banda de uma cidade vizinha a minha, a Daimoth [de Timbaúba/PE], para ser uma das bandas de abertura. […] Vale dizer que todos os eventos que a Moondo Records organizava eram muito bem feitos. Havia todo o cuidado na produção.

Ainda sobre os eventos da Moondo Records, como mencionei, fui para muitos deles. Em alguns, eu [ajudava] pagando o ingresso e, em outros, era convidado para fazer a cobertura oficial do festival. Na época eu já editava meu fanzine, o ‘Máquina do Metal’, e também colaborava para o site Metal Attack. Assim, Edmundo, na grande maioria das vezes, me credenciava para fazer a resenha dos eventos. Fui bem ativo nesse aspecto, sempre fazendo resenhas de tudo que Edmundo organizava.

Em alguns eventos, bom público, muita gente ávida por Heavy Metal e seus subestilos. Se bem que a Moondo Records enveredava mais para o lado mais extremo do Metal, atuando em linhas de estilo como Death, Black e Thrash Metal. Mas, por vezes, se arriscava em algo mais voltado ao Heavy Metal, como foi o caso dos dois dias de show do Viper, acho que em 2006, e ainda sem a volta do saudoso André Matos para a banda.

Importante mencionar que a Moondo Records foi a responsável por fazer o primeiro show do Violator [no Recife e agenciar a banda para outras cidades]. Na época, a banda tinha apenas uma Demo e um EP lançados. Quando Edmundo disse que faria o show dos caras, eu pirei! Juntei uma turma aqui [em Macaparana], e fomos numa van.

Eu já tinha contato com os caras do Violator por carta, e foi foda poder conhecer os caras pessoalmente. A amizade dura até hoje. E o show foi fantástico! Lembro que fui credenciado para fazer a cobertura e em certo momento Edmundo chegou perto de mim e disse: ‘Valterlir, porra! Tu ao invés de tá anotando os detalhes do show, só te vejo nas rodas de mosh e dando stage diving.’ Essa era a vida do ‘jornalista Underground’. (risos)

Ainda tive a oportunidade de receber Edmundo (e sua esposa à época, Juliana) em minha casa. Na época, eu também era casado com outra mulher aqui em Macaparana. Numa noite regada a vinho barato, cervejas e uma ressaca desgraçada no outro dia. Isso com alguns amigos que vez ou outra iam em shows e também já conheciam Edmundo. Ele me dizia que [era importante conhecer e prestigiar] a casa e as famílias de seus contatos, em cidades do interior etc. Foi muito bom o receber aqui, em minha casa.

Edmundo, Valterlir e Kinho, em Macaparana/PE. (Foto: Acervo de Valterlir Mendes).

Edmundo, via Moondo Records, além dos shows e vendas de materiais das bandas, ainda chegou a fazer alguns lançamentos: Iconoclasm, Recidivus (banda onde Edmundo era o baixista), Anthropophagical Warfare, uma coletânea em vinil e muitos outros…

Isto é, o selo foi muito ativo durante o seu período de atividades. Mas tudo chega a um fim, ainda mais num nicho tão limitado como é o Heavy Metal do submundo. […] Mas as boas memórias ficaram. Sejam dos shows, das viagens, das trocas de ideias quando eu ia à sua casa… Sobre a Moondo Records, não há dúvidas de que foi um selo que trabalhou com afinco e profissionalismo, trazendo muitas bandas que os Headbangers queriam ver. Era algo feito de forma muito séria e apresentando ao público o que podia dar de melhor, apesar de todos os obstáculos: zero apoio e zero patrocínio. Tudo na raça!” (Valterlir Mendes, técnico judiciário, editor do Recife Metal Law, Máquina do Metal Zine, em 03/08/2021).

Edmundo, Kinho e Valterlir, em Macaparana/PE. (Foto: Acervo de Valterlir Mendes).

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