Quem foi adolescente em meados da década de 1980 e início dos anos 90, naturalmente consumiu o Rock nacional. E se curtiu o estilo, possivelmente buscou mais informações através dos discos de diferentes vertentes, em fitas cassetes, nas revistas e até pela televisão. Várias bandas do Rock nacional estavam presentes nos mais diversos canais de comunicação, como o rádio e a TV. Além das transmissões de grandes festivais no período, com bandas/artistas internacionais. O objetivo aqui se distancia de uma história do Rock e dos festivais no Brasil. Apenas, uma contextualização daquela época.
O foco são as memórias sobre a Moondo Records e, para isso, busquei escutar alguns relatos da galera que, junto comigo, vivenciou a transição das décadas de 1980-1990, no bairro do Janga e adjacências, no litoral de Paulista/PE, um dos municípios da Região Metropolitana do Recife.
A minha família sempre morou em Olinda/PE e, se não me engano, nos mudamos para o Janga em 1989. Na época, ainda um local onde muitas pessoas/famílias veraneavam ou curtiam os finais de semanas nas praias do município.
A adolescência é Punk! Quem é pai, mãe ou responsável pela educação/criação de um/a jovem, conhece os desafios e os inevitáveis conflitos dentro e fora de casa. Bem, não é o momento ou o espaço para discussões teóricas sobre o tema, mas, torna-se necessário essa introdução, para compreendermos e, se possível sorrirmos com o relato do meu amigo das antigas, o grande irmão Max Lapa:
“Confesso que quando Edói [Edmundo] me convidou para escrever essa página do [futuro] livro contando minhas memórias da época em que nos conhecemos, comecei a rir. Porque, não lembro muita coisa com detalhes, que possam preencher pelo menos uma lauda dessa obra. [Porém], é mais do que uma honra poder contribuir com [o projeto]. Então… Hey ho, let’s go!
Raul Seixas cantou que os anos 80 foi uma charrete que perdeu o condutor. Os anos 90, meu velho, foi um caminhão sem freio, descendo uma ladeira, dirigido por uma pessoa cega e com outra [embriagada] no banco do passageiro, gritando: ACELERAAAAA!
Uma verdadeira explosão de descobertas, sensações, muitas emoções e sentimentos. Cheguei para morar no Janga, em meados de 1988. Filho único de mãe solteira, eu morava num edifício próximo da Avenida principal. Mais precisamente, na primeira transversal da famosa avenida conhecida por Manepá. Estudava a tarde e, de manhã, tinha aulas de reforço escolar.
Certo dia minha mãe me levou numa loja pra comprar roupas pra ela e eu fiquei aperreando pra ir embora logo. Na galeria dessa loja também tinha um Playtime [fliperama]. A dona da loja falou pra minha mãe: ‘deixa ele ir ali no playtime jogar um pouco. Meu filho está lá, Edmundo é o nome dele’. Fui, mas não procurei o tal filho da mulher da loja.
Foi a primeira vez que entrei [naquele fliperama], e não quis mais sair. […] Passei a frequentar a galeria diariamente e, depois de algum tempo, conheci Edói [Edmundo] e mais uma galera estranha, de cabelos grandes e tatuagens, meio esquisitos, que gostavam de escutar Rock e se denominavam punks.
Me identifiquei logo com Edmundo, que era o mais consciente de todos, mas não o menos louco! Começamos a andar juntos pra todo canto, praia, festas, shows. […] Era sintonia mesmo. E, entre uma festinha e outra vieram as bebedeiras, porres, ressacas, primeiros tragos e algumas loucuras de adolescentes.
A adrenalina e a testosterona nas alturas fazem o que é ‘proibido’ ser atrativo para dois jovens […] sem ter muito o quê fazer, e terminam fazendo besteiras. A gente [percorria diversos lugares] e, junto com outros colegas e amigos, [marcávamos o território] e os muros das cidades. Era uma galera grande!
Saíamos para os giros, os ‘rolês’. Foram muitos pelas ruas desertas do Janga e alguns pelas ruas de Pau Amarelo, bairro vizinho onde existia uma galera rival. Quando nos encontrávamos, era confusão na certa (risos) e, por conta disso, evitávamos andar sozinhos.
Mas a nossa maior loucura e paixão mesmo era a música. Música pesada, daquelas que quando toca, o vizinho religioso se ajoelha e reza. Naquela época, rolava uns shows grandes e bem legais [na área externa] de um Shopping do Recife. Em um desses shows, a atração [principal] era o Titãs. Era lançamento do LP ‘Tudo ao mesmo tempo agora’ e um resumo do que estava por vir…
[O lugar] era distante pra caramba e [pensei] que a minha mãe não ia me deixar ir. Mas, por ironia, ela deixou: acho que ela queria tomar uma com o boyzinho. A turma tinha combinado de ir todo mundo junto, porque, do Janga pra Boa Viagem era uma viagem. [Pegamos um busão até Olinda], aonde a mãe de um dos amigos que também ia para o show, levou uns dez caras na carroceria de uma caminhonete. A galera no visual, todos de preto, correntes na cintura, gandolas camufladas e coturnos.
Antes de sair de casa eu já tinha tomado umas doses de conhaque e lá [no show], pela primeira vez, dei um cheiro num lenço umedecido com álcool etílico e essências diferentes. Quando fiquei de frente para o palco, começou a ‘tocar a sirene’ e, como falei no início, não me lembro de mais nada. Amnésia total! Enfim, essas foram algumas das muitas histórias que vivemos nos tempos do Janga.” (Max Lapa, jornalista).
