Homero é um músico profissional extremamente talentoso, um cara diferenciado. Atua há anos com produção musical e possui vasta experiência viajando pelo Brasil e atuando em diversos projetos, desde os 17 anos, ao redor do mundo.
É o meu único irmão e sempre foi a minha base/referência profissional para, em meados dos anos 2000, a Moondo Records se tornar realidade. As memórias de Homero abrangem uma gama de especificidades e de vivências a partir da nossa casa. Afinal, a gente morou com os nossos pais e dividiu o mesmo quarto, o mesmo ventilador (risos) etc., por quase 20 anos.
As peculiaridades ao longo do relato do músico e produtor musical receberam as devidas complementações de minha parte, para uma ampliação dos olhares e compreensão dos/as respectivos leitores/as. Vejamos:
“Eu vi a Moondo surgir ainda na fase embrionária, entre cinco e oito anos antes da consolidação do selo. Jovens suburbanos, num lugar sem acesso a [tantas] opções ‘culturais’, se divertiam em Playtimes [fliperamas], bares de praia e pelas ruas de barro do longínquo bairro do Janga, e populosas cercanias como o Conjunto Beira Mar e Pau Amarelo (Paulista/PE). Naquela época, a juventude recorria a publicações de revistas ou zines pra poder saber o que estava rolando no mundo pré-globalizado. Não tinha essa de que tudo está disponível apenas a poucos cliques. A gente tinha que esperar o mês seguinte, pra saber quem estava lançando discos ou fitas K7, e pesquisar revistas antigas pra se aprofundar mais no universo do som. MTV Brasil era coisa de boy! [Na Região Metropolitana] do Recife, só pegava nas TVs com antenas UHF instaladas em prédios altos e em algumas poucas localidades da Capital.”
Percebam as referências, assim como no relato de Max, ao litoral de Paulista/PE, com ênfase nos bairros do Janga e Pau Amarelo. Homero prosseguiu:
“Acho importante contextualizar mais a época, só assim poderemos entender o motivacional da Moondo Records. Ou metia a cara e se fazia alguma coisa pra mudar essa situação [fomentar o underground] ou ninguém fazia nada. Talvez o surf que rolava ali nos anos 90, na Praia do Forte de Pau Amarelo tenha sido uma Meca pra juntar essa meninada que cultuava o underground no lugar do pagode, que, [naquela época], já impregnava os ouvidos da turma.”
Na sequência, o meu irmão citou dois grandes amigos que, desde 1993-1994, frequentavam a nossa casa:
“Eu só sei que me lembro de uma galera massa como Robson Machado e Alcides Jr. [ainda não era o conhecido e consagrado artista Alcides Burn] colando lá em casa, com violão embaixo do braço, que tocavam Ramones, Black Sabbath e Iron Maiden, no lugar de Legião Urbana. Não demorou muito e se organizaram [encabeçados por Edmundo e Robson], em um dos primeiros shows que hoje comparo com a essência de festivais independentes onde um leva a bateria, outro amp de guitarra e baixo, e todo mundo se ajuda na organização, venda de ingressos e demais demandas de produção.”

Particularmente, eu tive algumas experiências prévias colaborando na produção de shows underground desde 1992. Porém, de fato, o show organizado por nós em 1995 no Janga, pode ser considerado o primeiro evento com dedicação total de nossa parte:
“Foi num bar na PE-01, na esquina da entrada da Ciranda de Dona Duda. O evento foi um sucesso: lembro-me do lugar lotado e que o pau só comia na roda punk. Fora dela, o ambiente era bem pacífico de uma juventude instigada que ansiava por mais festas como aquela.”

Homero Basílio prosseguiu a narrativa, evidenciando a atuação da galera (pré-Moondo Records) em outros espaços. Precisamente, no ainda não revitalizado Bairro do Recife. O popular “Recife Antigo”:
“Como uma espécie de mascote, eu, o caçula, ajudava em algumas das empreitadas da turma. Anos mais tarde teve um show no antigo Francis Drinks, o famoso [bar e cabaré] de Dona Francis, localizado na área portuária do Bairro do Recife e palco de várias festas underground da galera já antenada no Movimento Mangue, [e carente de espaços para eventos de Rock e Metal]. Essa noite foi só de banda ‘porrada’, e camisas pretas e coturnos adornavam o salão. Em dia de festa assim não tinha o serviço habitual do lugar, mas a zona era a mesma. Fiquei responsável por duas funções, a de segurança e de apertar o ‘REC’ do gravador de fita que ia gravar o show do Subnarcose direto da mesa. Na real, eu era um boy de 15 anos, magro que contava com meu o primo mais velho, Eduardinho, esse sim mais bem nutrido, como dupla da segurança. Se chegava alguém ‘mangueando’ ingresso, eu não conseguia empunhar muito respeito. Porém Eduardinho, sim! E a galera acabava pagando tudo certinho. Lá pras tantas da noite, som alto e o pau comendo solto no salão, sobe um grupo de uns 12 caras gigantes, todos barbudos e com cara de poucos amigos. Falei pra o primeiro que o ingresso era 3 Reais e fui amplamente ignorado. Eduardinho tentou falar também, e sem sucesso. O cara deu um empurrão no meu primo, que pensei pra mim mesmo: ‘agora fudeu’. E foi quando Dona Francis chegou no exato momento pra botar a ordem e salvar a nossa pele. O cara se desarmou na hora que viu o rosto conhecido da senhora, que falou um idioma que não entendi e apaziguou tudo. Os caras entraram acompanhando ela, tomaram uma cerveja e saíram 10 minutos depois. Só então Dona Francis informou que era um grupo de Indianos que eram clientes dela, e que eles também não estavam entendendo nada do movimento estranho da noite. Queriam diversão com garotas e só tinha cabeludo dando porrada no salão, que zona era aquela afinal?”
Na verdade, quando eu e Robson saíamos no nosso intervalo de almoço (eu trabalhava em um escritório no centro do Recife) para negociarmos o espaço para um show underground, Dona Francis, gente fina demais, tinha apenas uma regra: no dia do evento, a gente não poderia barrar nenhum gringo que quisesse adentrar no estabelecimento. Talvez, na época, a gente tenha se esquecido de comentar tal detalhe com Homero e Eduardo. Meu brother comentou outras situações naquela noite:
“A noite ainda rendeu umas presepadas, como o cara muito instigado que deu um chute numa das portas dos quartos [destinados aos prazeres da carne], e a porta desabou. Só lembro-me da cena das bandas tocando, e o cara que fez a ‘cagada’, foi obrigado a consertar a dobradiça com uma chave de fenda, sob a supervisão da Dona Francis, lógico!”
Ao final do relato, meu irmão surpreendeu e, confesso, que me emocionou:
“O selo Moondo Records foi uma tremenda escola pra mim, que nessa altura do campeonato já deslumbrava com a música e com tudo que envolve esse mundo. Brincando, naquele dia realizei a primeira gravação da minha vida, e mal sabia eu que apertar o ‘REC’, seria muito frequente na minha profissão, graças à falta de talento como segurança.” (Homero Basílio, Músico e Produtor Musical, em 05/07/2021).
2 pensamentos em “Das antigas: Homero Basílio e as memórias “de casa””
Eita minha gente… que familia misturada da porra. Tem de tudo… amo muito esses relatos.