Memórias e Histórias (2000-2007)

Das antigas: memórias de Eduardo Santana, o “segurança”

Axé!
Salaam Aleikum!
Eduardo Santana, o Eduardinho citado por Homero, é um primo-irmão.
Mais um cara que viveu e absorveu as expressões socioculturais a partir “das Olindas” e também nos Arrecifes, em Pernambuco. Muito som, conhecimento e atitude!

O negão foi o brother que, no feeling, nos influenciou para as leituras e viagens pelo universo da Black Music, nas mais diversas ramificações e sonoridades. E o Rock é black nas origens! Lembremos sempre!
Vamos viajar no texto do professor Eduardo, o muçulmano, há mais de duas décadas, Karim.
Fala aí, irmão:

“Eu vi o Moondo… e ele começava no Recife. Sem pedir licença vou usando o título da emblemática obra do famoso pintor pernambucano Cícero Dias, pois era justamente assim como me sentia naquele Recife em meados dos anos 1990 e começo dos anos 2000.

A ‘Veneza pernambucana’ era um império de ritmos do mundo. Parece que o povo daqui tem um afã especial pela música, qualquer música, todos os sotaques e notas. De forma geral, a cultura pernambucana já é uma diversidade difícil de sintetizar, como se o termo eclético tivesse sido elaborado por alguém que houvera usado Pernambuco como referência.

Um passeio pelo Recife num domingo qualquer era um nirvana para quem gostava de ouvir, cantar, dançar. Eu vivia assim, gostando do que me ofertassem. E haja oferta! O dia parecia moldado por notas musicais. Nas praias, bem tocados pagodes; vespertinamente, batidas Hip Hop na roda da Dantas Barreto… Public Enemy pelo bairro de São José; noitinha, um reggaezinho ou um samba reggae no Alto da Sé, um maracatu de baque virado na Ribeira, um ‘som mangue beat’ numa rua qualquer do Recife Antigo… Loustal e Lamento Negro, coisa fina.

Recife era uma Meca musical, uma Avalon de ritmos, uma cidade musicada, ou, como nos legou o mestre Capiba, ‘(…) Pra que vida melhor, fale quem tiver boca’. Recife frevia, Recife freve. Mas, Heavy Metal? Rock pesado? Som underground?! Claro que Recife não tem perfil para coisas assim. Peguei vocês! Tinha e tem. E não é só o Devotos, há uma Realidade Encoberta aí.

Bandas várias, muitas vezes ‘erroneamente’ condensadas numa mesma descrição: ‘bandas de rock pauleira’, marcaram a cena musical recifense. Mas eu vivia distante disso tudo. Peguei vocês de novo!
Não é todo mundo que tem dois primos tocando em bandas de rock pesado, conhecidas na cidade. Me deixem corrigir, não é todo mundo que tem dois primos tocando em bandas, e um deles, criador de um selo underground.

É assim que a banda toca! Estava eu me tornando muçulmano – o Islam é religião que pratico hoje com fervor, um cara que curtia a dança de rua e que começava a dar uns passinhos de break pelas rodas do movimento Hip Hop. E, não mais de repente, mas nem tanto por acaso, estou eu envolvido em um show de rock pesadíssimo, promovido pelo [que seria posteriormente], a Moondo Records.

Recife Antigo de todos os ritmos, de todos os orixás, das batidas funk, frevendo maracatu. Tinha shows com boas bandas do gênero, promovidos por um selo que se tornou marca conhecida na cidade… e na minha memória de gente formada.

Os famosos bares do Grego e Francis Drink´s, conhecidos por gente de todo o mundo, se tornaram sedes do Moondo. Como sei disso?! Estava lá! Já estudando os ensinamentos de Allah, me vi dando uma força ao principal organizador, Edmundo Monte, o pai da Moondo, meu primo, num show incrível onde senti na íntegra, pela primeira vez, aquela explosão de som e estilos.

Sim, aquele som é uma explosão literal. Parece que a bateria está dentro dos nossos ossos, que vibram sob guitarras e baixos arretados, com a pujança das vozes de pessoas que literalmente gritam as letras. Experiência não tão nova, mas incrível, que tira do prumo até quem já está tarimbado no som. Pois é, alguns se empolgam além do previsto.

Extasiado pelo som, um cara, totalmente elevado pela potência sonora aprisionada naquele espaço que foi se apequenando, chutou a porta da anfitriã da festa jogando-a para bem longe dos ferrolhos. Bem, foi convidado carinhosamente a se retirar, pois o espetáculo deve continuar.

Saudoso daquele mundo no qual me tornei o que sou. Saudades da Moondo que vi nascer e, fico pensando na riqueza cultural que testemunhei tantas vezes na cidade onde nasci e cresci. Certa sexta, já pelos idos dos anos 2020, antes do mundo ser parado por um vírus, voltando da mesquita após a oração da sexta-feira, importante culto congregacional muçulmano, caminhava pela histórica Rua Sete de Setembro [no Centro do Recife], e me deu uma vontade enorme de entrar no icônico Beco da Fome, para ver se um cartaz da Moondo ainda estava naquele cantinho especial. Deixa de nostalgia, negão!” (Eduardo Santana, professor de História e servidor público).

Subnarcose, na década de 1990, tocando em um dos shows citados por Eduardo Santana que, junto com Homero, faziam a “segurança” do evento. (Foto: Acervo de Robson Machado).

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